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Imagem retirada de https://www.cartacapital.com.br/revista/1013/diabetes-podera-ser-combatido-com-cirurgia
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Infarto, derrame, cegueira, amputação, insuficiência renal com diálise e transplante de rim são algumas das consequências do diabetes crônico não bem controlado. Apesar de termos dois tipos de diabetes, de longe o mais comum é o tipo 2 (DM2).

Até recentemente, os pacientes com diabetes eram cuidados quase exclusivamente por clínicos: endocrinologistas, cardiologistas e geriatras. Na última década, a abordagem de DM2 mudou. Hoje, vários especialistas unem-se para otimizar o controle dessa doença grave. Clínicos, cirurgiões, psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas integram um sistema mais eficiente de cuidados com pacientes.

Conversamos com o doutor Ricardo Cohen, diretor do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Oswaldo Cruz e responsável por vários estudos científicos que modificaram o manejo de pacientes com obesidade e diabetes no Brasil.

CartaCapital: Cuidar de diabetes do tipo 2 mudou muito?
Ricardo Cohen: A última década tem sido rica em novidades. Novas drogas foram desenvolvidas, como um hormônio sintético e injetável, o liraglutide, que permite maior secreção de insulina pelo pâncreas. Outra droga, “irmã mais nova” e mais eficaz para o controle do DM2 e da obesidade, já foi lançada nos EUA e o será brevemente no Brasil.

É a semaglutide, injetável, que pode ser administrada uma vez por semana com resultados promissores. Novas pesquisas estão em desenvolvimento para sua forma oral, levando mais conforto que as injeções. Outra classe de remédios, que aumenta a excreção de glicose pelos rins, inibidores da enzima SGLT2, foi colocada no mercado com resultados encorajadores.

Ambas as classes de drogas aqui citadas, pela primeira vez, demonstraram diminuição clara da mortalidade e de eventos cardiovasculares. Também nesses últimos anos foram lançadas novas insulinas que têm maior segurança em relação à hipoglicemia, levando a menor incidência dessa grave complicação. Um grande avanço, sem dúvida.

CC: As novidades têm custo alto?
RC: Sim, o tratamento de DM2 é muito caro. Um estudo publicado na revista Diabetes Care, no mês passado, demonstrou um aumento de cerca de 70 bilhões de dólares nos gastos para o controle do DM2. Grande parte devido aos novos agentes antidiabéticos.

Ao mesmo tempo, as agências reguladoras, a Anvisa no Brasil e a FDA nos EUA, por exemplo, agora exigem estudos científicos mais complexos e extensos para demonstrar  não somente segurança na administração, mas também diminuição de complicações e mortalidade a longo prazo com DM2. Essas exigências, oportunas, fazem com que o custo de desenvolvimento das novas drogas cresça drasticamente e seja repassado ao sistema de saúde, público ou privado.

CC: Os avanços resolveram as complicações?
RC: Mesmo com essas novas medicações ainda temos números relativamente modestos de sucesso na remissão completa da doença. Mas as perspectivas de melhor controle mudaram. Há mais de 25 anos, estudos sobre cirurgia bariátrica, com o objetivo de perder peso, relataram a melhora imediata do DM2, muito antes da perda de peso.

Mostraram que o DM2 melhorava também, independentemente do índice de massa corpórea antes da cirurgia. Então, se temos efeitos antidiabéticos diretos das operações sobre o tubo digestivo, por que não buscar tal opção para aqueles pacientes que não têm controle do DM2 com o melhor tratamento clínico, mesmo com obesidade leve, de grau 1?

CC: Cirurgia para tratar diabetes?
RC: Exatamente. Várias pesquisas em animais comprovaram efeitos positivos da operação sobre o controle de glicemia, pressão arterial e colesterol, e o termo “cirurgia metabólica” foi criado. São intervenções sobre o tubo digestivo que têm como objetivo principal o controle do DM2, e a perda de peso como efeito desejado, e necessário, mas secundário. A cirurgia metabólica diminuiu a mortalidade a longo prazo, assim como o controle de complicações do DM2, revertendo ou desacelerando sua evolução.

CC: Mas e os riscos operatórios?
RC: As cirurgias são muito seguras, com baixos índices de complicações, e mortalidade comparável à simples retirada da vesícula biliar.

CC: A cirurgia para diabetes já está aprovada?
RC: As cirurgias metabólicas em pacientes com DM2 e obesidade leve, desde que não controladas clinicamente, foram oficializadas pelo Conselho Federal de Medicina em dezembro de 2017.

Fonte: Carta Capital